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- Use and abandonment: interpreting a mesolithic structure through faunal analysis (Cabeço da Amoreira shell midden, Muge)Publication . Filipe, Leonor Soares Carreiro Gonçalves; Gonçalves, Célia; Bonache, Anna RufàAs alterações climáticas do Holoceno marcaram o início de uma transição drástica nas estratégias de subsistência das comunidades humanas, alterando paisagens e criando novos nichos ecológicos que poderiam ser explorados e aproveitados. Na Europa, as últimas comunidades de caçadores-coletores demonstraram um crescente interesse na exploração de recursos aquáticos, como representado pela variedade e quantidade de concheiros encontrados em áreas costeiras e ribeirinhas ao longo da costa atlântica e do sul da Escandinávia (Gutiérrez-Zugasti, et al., 2011). Os concheiros de Muge (Salvaterra de Magos, Santarém) são um exemplo desse fenômeno e têm sido um dos grandes focos dos estudos mesolíticos em Portugal nos últimos 160 anos. Através de uma extensa coleção arqueológica, estes concheiros representam a complexa relação que as últimas comunidades de caçadores-coletores da bacia do Tejo tinham com sua paisagem e os recursos disponíveis. Depois de mais de um século e meio de investigação e múltiplas campanhas arqueológicas foi criada uma impressionante coleção arqueológica e paleoantropológica. Do ponto vista faunístico, uma longa lista taxonómica de mamíferos, anfíbios, répteis, aves, peixes e invertebrados, tem vindo a ser identificada. Estes foram objeto de vários estudos, como os de Lentacker (1986), Detry (2007), Pereira (2014) e Dias (2017). Em 2008 iniciou-se um projeto que instigou escavações arqueológicas anuais no concheiro do Cabeço da Amoreira, disponibilizando assim a oportunidade de estudos extensivos e comparativos, com o auxílio de novas metodologias colocadas em prática. As escavações em curso incluem atualmente georreferenciação da maioria (ver seção 3.1 Metodologia: Escavação e Materiais) dos materiais arqueológicos, o que fornece um amplo conhecimento sobre a distribuição especial de artefactos. Esses dados mostraram-se úteis na identificação de ações como o arrastamento de sedimentos (Aldeias & Bicho, 2016), acumulação de líticos (Belmiro, et al., 2020), eventos de deposição únicos, como a Feature A (Gonçalves, et al., 2018a). Após o trabalho de Pereira (2014) nos níveis mais altos do concheiro, e comparando com o extenso estudo das faunas em toda a estratigrafia por Detry (2007), visa-se compreender a história diacrônica deste sítio arqueológico através da análise de materiais provenientes dos níveis inferiores. Adicionalmente, beneficiando de novas metodologias de escavação e documentação dos últimos projetos que têm ajudado a identificar numerosos contextos bem definidos espacialmente estruturados, esta dissertação propõe a análise dos restos faunísticos da estrutura denominada de Feature C. Este estudo procura compreender a funcionalidade da estrutura, e testar como os dados espaciais podem ser essenciais para entender a distribuição faunística em nível intra-estrutura em relação a processos deposicionais e pós-deposicionais. O conjunto faunístico será analisado em termos anatómicos e taxonómicos, e será realizada uma análise tafonómica. É esperado que os dados recuperados desta análise poderão ser enquadrados dentro das estratégias de subsistência reconhecidas em estudos anteriores e explorar a utilização de certas espécies pela comunidade que habitava o amontoado de conchas. Além disso, visa-se compreender os processos pós-deposicionais pelos quais os restos faunísticos passaram, ilustrando o ambiente de abandono da Feature. A Feature C foi identificada dentro da camada 9 devido a uma aparente concentração de restos faunísticos, carvões e termoclastos nos quadrados de escavação A1 e B1 durante as campanhas de 2022 e 2023. Observações in situ sugeriam uma possível funcionalidade como estrutura de combustão, e ficou evidente através dos perfis que a estrutura se estendia para os quadrados A2 e B2 escavados em 2016 e 2018, respetivamente. Em A2 e B2, outras estruturas e depósitos tinham sido identificados (Feature Be Bone Cluster), mas uma relação entre os mesmos não tinha sido identificada. Tronou-se evidente graças a documentação das intervenções anteriores que a Feature C, Feature B e o Bone Cluster eram um único contexto. Como estes depósitos não tinham sido inicialmente identificados como partes de uma estrutura de combustão nem mesmo relacionados entre si até a terceira campanha arqueológica (2022), os materiais das campanhas anteriores tiveram de ser reanalisados seguindo os parâmetros do estudo atual (ver Capítulo 3. Metodologia), e análises espaciais foram realizadas para compreender o relacionamento entre os depósitos identificados, bem como estabelecer o tamanho total da estrutura. Além disso, uma vez que todos os quadrados mencionados foram individualmente escavados, os artefactos exumados poderiam ter sido suscetíveis à degradação dos perfis arqueológicos. Consequentemente, a análise espacial também é importante para entender o grau de erosão que poderia ter afetado a Feature e como isso poderia ter afetado a distribuição de artefactos. Esta estrutura, como possível estrutura de combustão, permitirá novas interpretações sobre o consumo animal nos níveis inferiores do concheiro e demonstrará a eficácia das novas metodologias na recontextualização de materiais durante o trabalho de laboratório. Com os dados coletados, o objetivo é identificar um padrão de consumo animal que possa integrar ou diferir das estratégias de subsistência previamente estudadas do local; bem como, compará-la com outras estruturas identificadas neste sítio arqueológico. Além disso, espera-se que a análise faunística realizada forneça informações valiosas em termos de tafonomia – permitindo que um segundo objetivo seja alcançado: a identificação de agentes acumuladores não humanos e a representação da história pós-deposicional da estrutura. Os resultados são comparados com análises faunísticas anteriores para enriquecer as descobertas deste estudo, pois uma abordagem comparativa ajudará a obter uma perspetiva mais ampla sobre o conjunto faunístico e alcançar uma perspetiva diacrónica da ocupação do local e do uso destas estruturas. Esses objetivos permitiram uma melhor compreensão das mudanças comportamentais ao longo do tempo e mostrarão como os restos faunísticos podem ser cruciais para entender a história da acumulação e pós-deposicional das estruturas arqueológicas, iluminando os papéis desempenhados por agentes antrópicos, carnívoros e naturais, que influenciam este sítio. Este estudo reforçou os dados paleoecológicos já conhecidos e descobriu dois possíveis momentos de atividade dentro da estrutura: um primeiro de origem antrópica (o uso do recurso), que fornece dados dietéticos, e o abandono da estrutura pelos humanos, evidenciado pela extensa atividade carnívora. Através desses objetivos, esperamos contribuir para uma compreensão mais profunda das relações entre as comunidades humanas mesolíticas e seu ambiente, bem como os processos de preservação e alteração que moldaram o registo arqueológico no Cabeço da Amoreira.
- Os vertebrados do período romano do vicus maritimus do cerro da vila (Vilamoura, Loulé)Publication . Pratas, Ana Isabel Martins Rosa Rocha; Valente, Maria JoãoA província da Lusitania auferiu, pela sua posição geoestratégica e pelos seus recursos minérios, uma importância que foi crescendo ao longo dos séculos. Nela foram construídas e redimensionadas diversas cidades, entre elas a urbe administrativa de Ossonoba (Faro), na qual se circunscreve o vicus maritimus do Cerro da Vila. A presente dissertação tem como propósito a identificação, análise e interpretação das estratégias de consumo e exploração de animais vertebrados recuperados em contexto romano neste arqueossítio, e, simultaneamente, colmatar a carência investigacional referente à zooarqueologia que existe, e persiste, no Cerro da Vila desde a sua descoberta. Este objetivo será atingido através do estudo da coleção faunística que advém das escavações realizadas aquando da construção do edifício-museu, entre 1997-1998, e das campanhas arqueológicas inseridas no projeto “Corpus dos mosaicos romanos no sul de Portugal – Ocupação Rural no sul da Lusitânia”, efetuadas entre 2000-2003. O resultado alcançado, através da leitura dos dados, foi o da formulação de hipóteses e inferências relativas ao modo de vida da comunidade humana que habitou, em época Romana, o sítio arqueológico do Cerro da Vila. A reinterpretação das áreas anteriormente escavadas, juntamente com a determinação funcional de outros espaços construtivos, permitiu comprovar objetivamente que a villa alto-imperial transformou-se paulatinamente num povoado costeiro tardoantigo (vicus maritimus). A maioria de suínos e caprinos, juntamente com os abundantes restos de animais domésticos de médio e grande porte e a relevante presença de galinha, deramnos a informação de estarmos perante uma comunidade autossuficiente, cujos meios de subsistência assentavam na exploração de preparados piscícolas a par com a agropecuária. A maioria de animais adultos proporcionou o aproveitamento de bens secundários e de força motriz necessária às diversas atividades (tração e passeio). A par, a alimentação seria complementada pelo veado e pelo coelho (espécies mais caçadas) e por variada avifauna representativa do meio ambiente à época.