Name: | Description: | Size: | Format: | |
---|---|---|---|---|
4.19 MB | Adobe PDF |
Authors
Advisor(s)
Abstract(s)
As angióspermicas marinhas, vulgarmente denominadas ervas marinhas, são um grupo de
monocotiledóneas que crescem nas águas costeiras e ambientes estuarinos de todos os mares
do mundo com a excepção da Antártida. Todas as ervas marinhas apresentam um
crescimento populacional que depende do balanço entre reprodução sexuada e crescimento
clonal. A espécie modelo desta tese, a erva marinha Cymodocea nodosa, é uma planta dióica
caracterizada por um crescimento clonal rápido e produção de sementes posicionadas junto
ao rizoma materno. A espécie apresenta uma distribuição geográfica repartida pela bacia
Mediterrânica e Atlântico Norte, desde o estuário do Sado até ao banco de Arguin na
Mauritânia, assim como no Arquipélago Canário e ilha da Madeira.
O âmbito desta tese é o estudo da genética populacional desta planta clonal através da
análise de marcadores microsatéllites que são aqui inicialmente caracterizados. Estas
ferramentas foram utilizadas ao longo deste trabalho para responder a uma série de questões
organizadas segundo uma escala espacial e evolutiva crescente. Inicialmente são colocadas
questões relacionadas com a capacidade de distinguir a individualidade genética, uma
questão essencial em estudos de organismos clonais.
Passamos de seguida para o nível dos processos populacionais onde procuramos
compreender se a aparente baixa capacidade de dispersão da espécie se reflecte na sua
estrutura genética espacial. De que modo contribuem a reprodução sexual e clonal para a
dispersão de genes à escala local? Os resultados revelaram a mais forte estrutura genética
jamais encontrada para qualquer erva marinha, apenas comparável com a de ervas terrestres
que apresentam auto-fertilização. A estrutura clonal e a fraca dispersão observadas sugerem
que a estratégia de recrutamento da espécie deve seguir um modelo de adição constante de
plântulas à escala da pradaria, com alta mortalidade inicial.
A estrutura genética espacial de uma população necessita de várias gerações para se
estabelecer; quais são então os processos (clonais ou sexuais) que determinam o crescimento
da espécie nas fases iniciais de colonização, correspondentes ao crescimento e fusão de
manchas de vegetação? Através da análise da variação da riqueza genotípica de uma série de
manchas de idade variável, e da sua alocação sexual, descobrimos que enquanto que muitas
manchas permanecem monoclonais por muitos anos, noutras encontramos um padrão de
enriquecimento do número de clones por mancha com o aumento da idade da mancha. Um
aumento rápido parece estar associado à fase de fusão de várias manchas formando uma
pradaria contínua, como sugere o elevado número de clones e investimento sexual
9
encontrados nesse caso. As manchas compostas por mais do que um clone revelaram ser
dominadas por apenas um ou dois clones, contudo e inesperadamente os clones de menor
tamanho não eram os filhos dos clones dominantes.
Subindo para uma escala geográfica maior, estudámos os níveis de diferenciação genética
nas Ilhas Canárias, um sistema caracterizado pelo isolamento geográfico característico dos
habitats em ilhas. A estrutura genética de Cymodocea nodosa revelou uma baixa diversidade
alélica, provavelmente devido ao efeito de gargalo associado à colonização destas ilhas, e
uma alta riqueza genotípica, comprovadora de uma elevada dependência da reprodução
sexuada. A diferenciação genética encontrada entre populações é bastante marcada, mesmo
para pradarias localizadas na mesma ilha, revelando que o fluxo de genes inter-populacional
deve ser bastante reduzido e um sistema dominado pelos efeitos da deriva genética.
Finalmente, sempre aumentado a escala geográfica da análise, questionamos qual o efeito
da importante barreira geográfica constituída pela transição entre o Oceano Atlântico e o Mar
Mediterrâneo nos padrões filogeográficos da espécie. Um total de 16 e 19 pradarias foram
amostradas no Atlântico e Mediterrâneo respectivamente. Uma forte diferenciação genética
entre populações foi novamente encontrada ao longo da distribuição da espécie, mas neste
caso os padrões parecem ser explicados pela vicariância produzida pela história geológica
desta região desde o Plioceno e pela colonização ancestral do Atlântico a partir do
Mediten-âneo caracterizada por sucessivas reduções do tamanho efectivo da população. Um
conjunto bem marcado de alelos específicos de cada bacia apenas pode ser encontrado em
conjunto na Ibéria Atlântica, sugerindo esta região como uma zona de contacto secundário.
Com base no resultados encontrados aqui são propostas duas zonas como unidades de gestão
do ponto de vista evolutivo 1) o grupo constituído pelas ilhas Canárias e Mauritânia, pela
grande divergência genética encontrada e 2) a baía de Cádiz pela raridade regional que a sua
elevada riqueza genotípica significa no contexto da Cymodocea nodosa na costa Atlântica do
Sul da Península Ibérica.
Description
Dissertação de dout. em Ecologia, Faculdade de Ciências do Mar e do Ambiente, Univ. do Algarve, 2005
Keywords
Ervas marinhas Crescimento populacional Reprodução sexuada Crescimento clonal Cymodocea nodosa