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Resumo(s)
Os Geoparques Mundiais da UNESCO são territórios que se distinguem por integrarem património geológico de importância internacional com estratégias de desenvolvimento sustentável e envolvimento das comunidades locais (UNESCO, 2025c). O seu modelo de gestão holístico, focado em três áreas fundamentais - geoconservação, geoeducação e geoturismo (UNESCO, 2024) - alinha estes territórios com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da UNESCO (Gabriel, Moreira, Alencoão, Faria, Silva & Sá, 2018; United Nations, 2024) e, neste contexto, o geoturismo, em particular, é visto como uma ferramenta para alavancar a sustentabilidade económica, social e ambiental do território (UNESCO, 2024).
Contudo, o geoturismo enfrenta novos desafios que refletem problemáticas globais no setor turístico, como o turismo de massas, que já afeta negativamente alguns geoparques (Drápela, Pánek, Boháč & Böhm, 2025). Embora o turismo possa ser um aliado vital na gestão de áreas protegias (Fernandes, Castro & Tracana, 2020; Gordon, 2018) é igualmente reconhecido como uma das indústrias com maior pegada ecológica (Dolnicar, 2020) Importa, no entanto, clarificar que os Geoparques Mundiais da UNESCO não são áreas protegidas, embora partilhem objetivos comuns relacionados com a conservação, a educação e o desenvolvimento sustentável. Neste contexto, o papel das tecnologias torna-se particularmente relevante, uma vez que podem apoiar a monitorização, a conservação do património e a gestão sustentável dos visitantes em territórios que não dispõem de um estatuto formal de proteção. Além disso, a complexidade de conceitos geológicos dificulta a sua comunicação de forma simples e eficaz, o que reforça a pertinência de estratégias de marketing alinhadas com perfis de públicos e facilitadoras de ações de interpretação mais eficazes, assim como potenciadoras de experiências turísticas apelativas para públicos não especializados (Dowling, 2011). A Declaração de Arouca, assinada em 2011, no âmbito do Congresso Internacional de Geoturismo realizado no geoparque Arouca, Portugal, é um documento orientador que estabelece os princípios do geoturismo, defendendo a inovação na valorização do património geológico e encorajando o recurso a novas tecnologias, em substituição de métodos tradicionais (Arouca Declaration, 2011).
A literatura em gestão e marketing aplicada ao turismo e aos territórios, incluindo geoparques, tem vindo a explorar diversos conceitos para responder a estes desafios. Neste contexto, por exemplo, o slow tourism surge como uma alternativa ao turismo de massas que propõe a desaceleração do visitante em contexto de viagem através da sua imersão em experiências únicas (Mavric, Öğretmenoğlu & Akova, 2021; Valls, Mota, Vieira & Santos, 2019). A filosofia slow em geoparques da UNESCO não é inédita, embora escassa (Fusté-Forné, 2023). Trata-se de uma filosofia cujo modelo de desenvolvimento turístico de valorização do território converge com os princípios orientadores dos Geoparques da UNESCO (Fusté-Forné, 2023) e potencia abordagens inspiradas no turismo regenerativo que, além de mitigar eventuais efeitos negativos, procura enfatizar os impactos positivos através de ações regenerativas e transforadoras nos territórios, comunidades e visitantes através da experiência turística (Duarte, Cousins, Ficociello, Williams & Khowala, 2024).
Neste contexto, a Arouca Declaration (2011) reconhece o papel das novas tecnologias no centro da construção de um destino smart. A literatura explora o conceito de smart destinations e esclarece que o seu foco é a utilização da tecnologia para otimizar a gestão do destino, melhorar a qualidade de vida dos residentes e aumentar a qualidade das experiências turísticas (Gretzel, Werthner, Koo & Lamsfus, 2015). As tecnologias têm sido vistas como ferramentas versáteis e adaptáveis, acessíveis e de fácil aceitação, especialmente por gerações mais jovens, com potencial para influenciar atitudes dos visitantes (Fassoulas, Nikolakakis & Staridas, 2022; Alyahya & McLean, 2022; Tussyadiah, Wang & Jia, 2017; Pradhan, Malik & Vishwakarma, 2023), melhorar a acessibilidade (Ozdemir, 2021; Beck, Rainoldi & Egger, 2019) e fomentar a co-criação (Jovicic, 2019).
É neste cruzamento entre a necessidade de responder a desafios de longo prazo, integrar a sustentabilidade e inovar ao nível tecnológico que surge o conceito de wise destination. Definido como uma evolução das smart destinations, é uma estratégia de gestão do destino que integra as tecnologias de forma mais humana tirando partido dos benefícios do uso tecnologia, mas tendo em consideração a sustentabilidade, o envolvimento das comunidades, o bem-estar e a necessidade de criar equilíbrio oferecendo oportunidades para a desconexão (Coca-Stefaniak, 2020).
Tendo como base uma extensa revisão de literatura, em particular, em torno dos conceitos de smart destination, slow tourism, turismo sustentável e regenerativo, é proposta uma framework conceptual que relaciona, no contexto de geoparques e geoturismo, conceitos como o wise destination e o papel de novas tecnologias na melhoria da experiência do visitante e na promoção de práticas de turismo sustentável, regenerativo e inclusivo. Apesar de reconhecido o seu potencial no contexto turístico contemporâneo, o conhecimento teórico e empírico sobre o conceito é escasso. Por exemplo, desde a conceptualização do conceito wise destination, foram desenvolvidos modelos conceptuais para um post-smart destination, na Indonésia (Kusumastuti, Pranita, Viendyasari, Rasul & Sarjana 2024; Pranita, 2023), mas ainda não foi explorado em geoparques e geoturismo. Assim, o objetivo deste estudo é explorar caminhos para desenhar uma estratégia de wise destination no contexto dos Geoparques Mundiais da UNESCO, com foco no Geoparque Algarvensis, localizado no Algarve, sul de Portugal, é um território que apresenta uma combinação de zonas costeiras, que, no verão são afetadas pelo turismo de massas, com áreas do interior de baixa densidade populacional, enfrentando desafios de coesão territorial e desenvolvimento sustentável. A nível económico, o turismo constitui uma das principais atividades, sendo o geoturismo uma oportunidade para diversificar a oferta, valorizar os recursos endógenos e promover uma maior ligação entre visitantes e comunidades locais.
A investigação adotou uma abordagem qualitativa, dada a natureza exploratória do tema. Os dados foram recolhidos através de cinco focus groups com stakeholders do território do Geoparque Algarvensis: residentes, associações locais, entidades regionais de turismo e meio ambiente, operadores turísticos e os técnicos da equipa do geoparque.
A análise temática permitiu organizar os resultados em seis dimensões: Geo-smart destination; Comunicação da marca; Sustentabilidade; Barreiras à implementação; Impactos do uso da tecnologia e Geo-wise destination. Os resultados deste estudo indicam um forte consenso entre os stakeholders sobre o potencial da tecnologia para transformar o Geoparque Algarvensis numa wise destination. Os participantes identificaram uma ampla gama de soluções tecnológicas, incluindo realidade virtual e aumentada, gamificação, redes sociais, entre outras, para criar smart experiences, imersivas e educativas, e promover um smart business ecosystem colaborativo entre os parceiros locais. Foi identificado o potencial da tecnologia para comunicar a marca Algarvensis, tornando conceitos geológicos complexos mais acessíveis e contribuindo para uma estratégia integrada de comunicação. Além disso, a tecnologia foi considerada uma ferramenta fundamental para promover a sustentabilidade através da monitorização dos visitantes, da conservação do património, por exemplo a proteção de locais vulneráveis ou inacessíveis através de alternativas virtuais e da melhoria da acessibilidade. Apesar desta perspetiva positiva, foram identificadas barreiras significativas, incluindo custos de implementação elevados, desafios operacionais como a falta de conhecimento técnico e fatores sociais relacionados com a literacia digital dos visitantes ou o desejo desconexão em períodos de lazer. Fundamentalmente, as conclusões reforçam o papel central das novas tecnologias no desenho de um destino smart mas, simultaneamente, identificam pistas que podem alavancar uma abordagem wise que envolve reinterpretar estrategicamente as fraquezas do território, como áreas sem internet, e transformá-las oportunidades para criar zonas de detox digital, num equilíbrio entre a inovação tecnológica e a promoção do bem-estar e a conexão autêntica com o território.
Os resultados deste estudo contribuem para o avanço do conhecimento em torno do conceito wise destination, em articulação com tecnologias smart, num território onde o turismo slow e regenerativo definem uma estratégia alinhada com critérios da Arouca Declaration, (2011) para o geoturismo e os objetivos de desenvolvimento sustentável da United Nations (2024). As implicações para a gestão são também discutidas, nomeadamente em Geoparques Mundiais da UNESCO.
UNESCO Global Geoparks are territories that integrate the geological heritage of international relevance with strategies for sustainable development and participatory governance. It encompasses geoconservation, geoeducation, and geotourism, positioning them as laboratories for the articulation of natural and cultural values with socioeconomic advancement. Nevertheless, geotourism faces new challenges, including mass tourism, the ecological footprint associated with tourism mobilities, and the inherent complexity of translating geological knowledge into accessible and meaningful narratives. In response, the Arouca Declaration underscores the imperative of innovation and technological incorporation as vectors of resilience and transformation. Parallel discourses in the tourism literature have addressed such challenges through the paradigms of slow tourism, regenerative tourism, and smart destinations. Against this backdrop, the present study advances a conceptual framework that links these paradigms to the emergent construct of a wise destination considered a strategy in which technological infrastructures are integrated in a human-centred manner, privileging sustainability, community participation, well-being, and the facilitation of disconnection. Despite its potential, the corpus of theoretical and empirical research on wise destinations remains embryonic. Post-smart destination models have begun to emerge, however, their application within geopark contexts remains unexamined. Therefore, the objective of this investigation is to delineate potential pathways for a wise destination construction within UNESCO Global Geoparks, focusing on the Algarvensis Geopark, located in the Algarve region, Portugal. In Algarvensis, the tensions between coastal zones, subjected to the pressures of intensive mass tourism, and inland territories, characterised by structural challenges of cohesion and development asymmetry, are daily challenges to deal with. Methodologically, the study adopts a qualitative design, comprising five focus groups with key stakeholders. The empirical evidence reveals a strong consensus regarding the transformative role of technology in reconfiguring Algarvensis as a geo-wise destination. Stakeholders emphasised the capacity of digital innovation to enable immersive and educational visitor experiences, foster a smart business ecosystem, strengthen territorial branding, advance sustainability imperatives, enhance heritage conservation, and improve accessibility. Although barriers to implementation persist, findings indicate that such challenges may be reframed as opportunities for the strategic valorisation of territorial weaknesses. This research contributes to the theoretical consolidation of the wise destination construct by demonstrating its applicability to UNESCO Global Geoparks. It further highlights the potential of integrating smart technologies with slow and regenerative tourism strategies, thereby reinforcing the normative orientations established in the Arouca Declaration and United Nations sustainable development agenda. Management implications are also articulated, particularly within UNESCO Global Geoparks as multifunctional territories at the interface of (geo)heritage, community, and tourism.
UNESCO Global Geoparks are territories that integrate the geological heritage of international relevance with strategies for sustainable development and participatory governance. It encompasses geoconservation, geoeducation, and geotourism, positioning them as laboratories for the articulation of natural and cultural values with socioeconomic advancement. Nevertheless, geotourism faces new challenges, including mass tourism, the ecological footprint associated with tourism mobilities, and the inherent complexity of translating geological knowledge into accessible and meaningful narratives. In response, the Arouca Declaration underscores the imperative of innovation and technological incorporation as vectors of resilience and transformation. Parallel discourses in the tourism literature have addressed such challenges through the paradigms of slow tourism, regenerative tourism, and smart destinations. Against this backdrop, the present study advances a conceptual framework that links these paradigms to the emergent construct of a wise destination considered a strategy in which technological infrastructures are integrated in a human-centred manner, privileging sustainability, community participation, well-being, and the facilitation of disconnection. Despite its potential, the corpus of theoretical and empirical research on wise destinations remains embryonic. Post-smart destination models have begun to emerge, however, their application within geopark contexts remains unexamined. Therefore, the objective of this investigation is to delineate potential pathways for a wise destination construction within UNESCO Global Geoparks, focusing on the Algarvensis Geopark, located in the Algarve region, Portugal. In Algarvensis, the tensions between coastal zones, subjected to the pressures of intensive mass tourism, and inland territories, characterised by structural challenges of cohesion and development asymmetry, are daily challenges to deal with. Methodologically, the study adopts a qualitative design, comprising five focus groups with key stakeholders. The empirical evidence reveals a strong consensus regarding the transformative role of technology in reconfiguring Algarvensis as a geo-wise destination. Stakeholders emphasised the capacity of digital innovation to enable immersive and educational visitor experiences, foster a smart business ecosystem, strengthen territorial branding, advance sustainability imperatives, enhance heritage conservation, and improve accessibility. Although barriers to implementation persist, findings indicate that such challenges may be reframed as opportunities for the strategic valorisation of territorial weaknesses. This research contributes to the theoretical consolidation of the wise destination construct by demonstrating its applicability to UNESCO Global Geoparks. It further highlights the potential of integrating smart technologies with slow and regenerative tourism strategies, thereby reinforcing the normative orientations established in the Arouca Declaration and United Nations sustainable development agenda. Management implications are also articulated, particularly within UNESCO Global Geoparks as multifunctional territories at the interface of (geo)heritage, community, and tourism.
Descrição
Palavras-chave
Wise destination Smart destination Slow Tourism Turismo Regenerativo Geoturismo Geoparques Mundiais da UNESCO
