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Authors
Abstract(s)
O estudo dos padrões de subsistência, ocupação e mobilidade das comunidades humanas
durante o Mesolítico, é um tema de investigação fundamental nos contextos da evolução das
mudanças do comportamento humano e dos processos de adaptação durante o surgimento das
alterações climáticas que caracterizaram o Holoceno. Um dos fenómenos associados a estas
alterações, é o aparecimento dos depósitos antrópicos conhecidos como concheiros que
caracterizam a ocupação mesolítica na vertente atlântica da Península Ibérica.
Não obstante, o actual estado da arte da investigação deixa claro a pertinência de algumas
questões relacionadas com os modelos de ocupação e exploração do território, e recursos
durante o Mesolítico. Tendo em conta os modelos teóricos vigentes, o presente trabalho procura
contribuir para a discussão sobre o tipo de ocupação nos concheiros mesolíticos, aprofundando
questões relacionadas com a interpretação do sítio arqueológico, no que toca a questões como a
funcionalidade, intensidade e sazonalidade da ocupação humana.
Tendo como base a realidade geográfica da vertente atlântica da Península Ibérica, o presente
trabalho tem como caso de estudo o concheiro Mesolítico do Cabeço da Amoreira, focando a
análise interdisciplinar dos restos ictiológicos das diferentes unidades crono-estratigráficas do
depósito.
O presente estudo apresenta dados de alta-resolução sobre os restos ictíicos recuperados das
escavações de 2008-2014 no concheiro mesolítico do Cabeço da Amoreira, através do estudo
sistemático de 5379 restos ósseos de peixe recolhidos nas referidas campanhas arqueológicas. A
análise aqui encetada, explora a diversidade taxonómica, a distribuição esquelética dos elementos
ou fragmentos ósseos recuperados, os processos tafonómicos e também, um set de critérios que
afectam a identificação destes tipos de restos. Simultaneamente, tenta-se reconstruir, através dos
dados obtidos, o papel dos recursos ictíicos na subsistência e o tipo de realidade tecnológica
possivelmente envolvida na sua captura através do enquadramento teórico dos métodos
conhecidos de exploração e susceptíveis de terem sido utilizados durante o Mesolítico.
Enquadra-se também o consumo deste tipo de recursos num contexto cronológico mais
alargado, que indica um consumo sistemático bastante anterior à transição Plistoceno-Holoceno.
Procurou-se também fazer um enquadramento da disciplina da Ictiologia e da sua evolução que viria a resultar na investigação sobre o papel dos recursos ictíicos na investigação arqueológica,
particularmente na zooarqueologia.
Tendo em conta as questões supracitadas, o presente trabalho tem como objectivo
contribuir para a discussão sobre os modelos de ocupação (e.g sazonalidade), tipo da ocupação,
estratégias de subsistência e exploração das espécies disponíveis local e regionalmente e
confirmar os modelos existentes que propõem uma ocupação sedentária ou semi-sedentária, ao
longo de todo o ano e que não exclui, apesar disso a possibilidade de uma relativamente elevada
mobilidade individual. Paralelamente, o presente trabalho procura integrar o Cabeço da
Amoreira na realidade geográfica e paleoambiental, no período mesolítico através dos dados
disponíveis através da análise dos restos ictíicos ali recolhidos.
Para além da descrição taxonómica dos elementos ictiológicos presentes nas diferentes
unidades estratigráficas, o presente trabalho, apresenta e discute dados da análise
esclerocronológica e de isótopos estáveis de δ18O, de 15 otólitos de corvina (Argyrosomus regius)
provenientes da última ocupação do Cabeço da Amoreira (Muge, Portugal). Procurou-se, deste
modo, criar uma metodologia reproduzível para este tipo de materiais, provenientes de
escavações arqueológicas. De entre os restos analisados, os otólitos foram seccionados e
observados com recurso a uma lupa binocular com luz reflectida de forma a observar os anéis
de crescimento, formados sazonalmente. O carbonato recolhido em amostras dos vários anéis
de crescimento, obtido com a ajuda de um dispositivo de amostragem equipado com uma microbroca
de diamante, foi analisado de forma a obter os valores dos isótopos estáveis de δ18O, com
o objectivo de determinar a época de captura predominante e, portanto, balizar sazonalmente a
ocupação do sítio, as condições paleoambientais e os locais de obtenção de recursos (locais versus
regionais). As potenciais alterações diagenéticas foram observadas através μ-Raman, e LA-ICPMS.
Os resultados mostraram a preservação da aragonite, não mostrando evidências de
processos diagenéticos com potencial de alterar os resultados isotópicos e levar a interpretações
erróneas. Em suma, os resultados aqui apresentados e discutidos revelam valores sazonais claros
e uma estimativa sazonal que parece ser consistente com períodos de temperaturas mais elevadas
(Primavera-Verão-início do Outono), para a ultima ocupação mesolítica do Cabeço da Amoreira.
Description
Keywords
Restos ictíicos Mesolítico Sazonalidade Subsistência