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Authors
Advisor(s)
Abstract(s)
Carlos Campaniço lançou
em maio um novo romance
(que foi finalista do Prémio
Leya 2013), demonstrando vitalidade
e vontade de prosseguir
esta sua já premiada carreira de
escritor.
Tal como nas obras anteriores
– provavelmente por gosto
e formação do autor, dado que
a história é a sua especialidade
–, também este é um romance
de época, desta vez passado no
início do século XIX: a narrativa
acompanha Santiago, um jovem
médico, partidário de D.
Pedro, que se refugia, durante
as Guerras Liberais (1828-
1834), numa vila longe de
Lisboa, uma vila que é a terra
que o viu (mal) nascer: «Olho a
praça com um vagar que é ainda
de saudade. Estes recantos
e travessas, ruas e largos, continuam
a ser os meus passos.
(…) é aqui na vila que ouço o
tambor do meu coração» (pp.
17-18). Naturalmente, ficamos
com curiosidade para saber por
que razão de lá saiu e por que
se inibe em se fazer reconhecer
diretamente pelos seus conterrâneos
(apesar de não se esconder
– sai da casa, expondo-se à
vista de todos –, também não
se identifica). Mas o motivo
só nos é revelado no final. Até
lá, vamos acompanhando, em
capítulos intercalados, uns largos
meses da vida de Santiago
adulto e uns anos da de Santiago
menino, de forma a ir construindo,
paulatinamente, a sua
história.
Santiago não é propriamente
um herói, um homem de altos
padrões morais e de elevada
consciência social, que luta e
assume a consequência dos
seus princípios e crenças. Não.
Em Lisboa, Santiago teme pela
vida e foge dos miguelistas;
na vila, receia assumir quem
é («Temo a reacção de Albano
e de dona Odélia», p. 16;) e as
consequências de ser acusado
de herege («Fico aterrado com
esta postura súbita do vereador
», p. 53); no amor, enreda-
-se com duas mulheres casadas
e não tem coragem quer para
cortar com uma que o persegue,
quer para declarar a outra
que a ama; e aceita fazer a corte
a uma terceira, que não é tida
nem achada nestas demandas.
Porém, todas estas fragilidades
fazem-no parecer mais
humano. Ao mostrar a infância
sofrida de Santiago, durante a
qual foi maltratado, exilado e
até, pode-se afirmar, sequestrado,
Carlos Campaniço consegue
fazer-nos simpatizar e
empatizar com as suas fraquezas
de adulto e até admirar
a compaixão que ainda tem
dentro de si, depois de tudo o
que se passou (as lágrimas chegam-
lhe facilmente aos olhos,
quando perante a miséria humana
e a doença).