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Resumo(s)
O grupo dos cetáceos é extremamente diverso e evoluiu no sentido das espécies apresentarem vidas longas e formarem populações estáveis. Estes predadores de topo são altamente sensíveis a alterações nos seus habitats e respondem rapidamente às mesmas, agindo assim como espécies sentinelas. As baleias (no sentido lato do nome comum, incluindo baleias de barbas e grandes baleias de dentes) são consideradas engenheiras do ecossistema, desempenhando um papel importante na manutenção de ambientes saudáveis e equilibrados. Além disso, desempenham funções socioeconómicas relevantes, nomeadamente na indústria de observação de cetáceos. Assim, estes mamíferos carismáticos são elementos essenciais para aumentar a consciência pública e política, visto que, quando se trata destas espécies, a maioria das pessoas demonstra maior predisposição para participar em esforços de conservação e de angariação de fundos. Adicionalmente, a proteção de cetáceos e dos seus habitats pode levar à preservação de animais que podem não atrair tanta atenção da sociedade. No entanto, os cetáceos estão expostos a numerosas ameaças antropogénicas, tais como: perturbações sonoras, colisões com embarcações, sobrepesca, enredamento acidental, e poluição química. Tais ameaças e consequentes impactos têm vindo a tornar-se cada vez mais alarmantes. Uma das maiores preocupações globais é a problemática das colisões entre baleias e embarcações, especialmente com navios de maior dimensão e/ou que navegam a maior velocidade. As colisões podem ocorrer com todos os tipos de embarcações e em todos os oceanos, sendo altamente prevalentes no Oceano Atlântico Norte, onde existe uma grande sobreposição de áreas de grande intensidade de rotas marítimas e, simultaneamente, com maior densidade de baleias. Medidas como a alteração de rotas, a redução da velocidade de navegação, e a presença de observadores a bordo (para facilitar a deteção antecipada dos cetáceos) são atualmente as mais utilizadas para mitigar as colisões. Contudo, a intensidade desta ameaça permanece difícil de quantificar, visto que a deteção destes eventos, principalmente em grandes embarcações, é desafiante e, portanto, os registos são raros. A maioria dos dados sobre colisões letais provém da examinação de carcaças, que representa apenas uma fração reduzida dos casos, sendo que parte dos corpos acaba por afundar. Adicionalmente, existem casos de colisões não letais que podem causar ferimentos ligeiros a lesões graves, condicionando a saúde, condição corporal, e eventualmente a viabilidade a longo-prazo das baleias atingidas. Estas colisões podem comprometer certas funcionalidades biológicas vitais, tais como a alimentação e reprodução. Assim, de modo a quantificar e estimar a ocorrência de colisões, reconhece-se que a melhor abordagem é a utilização de indicadores, tais como os Encontros-Surpresa e os Eventos de Quase-Colisão. Estes acontecimentos, coletivamente denominados de Encontros-Próximos, nos quais nenhuma colisão confirmada ocorre, são incidentes não planeados que não causam ferimentos externos comprovados, mas têm o potencial para o fazer. Mesmo sem colisão, a passagem tão próxima de certas embarcações, pode causar níveis elevados de stress ou problemas de saúde, incluindo danos auditivos. No entanto, existem desafios associados à definição destes eventos, já que diferentes estudos recorrem a critérios distintos. Com o presente estudo, pretendeu-se definir e quantificar Encontros-Surpresa e Eventos de Quase-Colisão, bem como investigar a influência de certos fatores (por exemplo, embarcação, espécie, condições ambientais) na ocorrência de Encontros-Próximos. Para tal, foram usados dados de ocorrência de cetáceos recolhidos entre 2012 e 2024, no Oceano Atlântico Nordeste, incluindo as águas ao longo da Península Ibérica e dos Arquipélagos da Macaronésia. Estes dados foram recolhidos por observadores de mamíferos marinhos, através de monitorização visual a bordo de cargueiros e navios oceanográficos, usados como plataformas de investigação. No âmbito deste estudo, os Encontros-Surpresa e os Eventos de Quase-Colisão foram definidos com base no tempo até uma potencial colisão, ao invés de uma distância fixa, permitindo uma abordagem mais dinâmica e com maior sensibilidade à velocidade da embarcação. Métodos de estatística descritiva e análise espacial foram aplicados para caracterizar as variáveis associadas aos Encontros-Próximos, tal como avaliar a sua distribuição geográfica ao longo da área de estudo. Modelos Aditivos Generalisados permitiram investigar os padrões espaço-temporais dos Encontros-Próximos e analisar a influência de variáveis relacionadas com a detetabilidade no tempo até uma potencial colisão. Para avaliar diferenças entre grupos de baleias, foram gerados modelos separados para i) todos os avistamentos de baleias, ii) apenas avistamentos de baleias de barbas, e iii) apenas avistamentos de baleias de bico. Ao longo de 13 anos de monitorização, um total de 1211 avistamentos de baleias foram registados, envolvendo 11 espécies. Destas, dez estiveram associadas a Encontros-Surpresa e apenas quatro a Encontros de Quase-Colisão. De todos os avistamentos, 433 (35.76%) foram classificados como Encontros-Surpresa e 24 (1.98%) como Eventos de Quase-Colisão. O cachalote (Physeter macrocephalus) foi a espécie mais envolvida nestes Encontros-Próximos, seguido do zífio (Ziphius cavirostris), e da baleia anã (Balaenoptera acutorostrata). A maioria dos Encontros- Próximos foram associados a baleias que exibiram um comportamento indiferente em relação ao barco e a indivíduos solitários, em concordância com a literatura. Entre os Eventos de Quase-Colisão, sete ocorreram à proa do navio (Eventos de Provável Colisão), dos quais três apresentaram um comportamento indiferente em relação ao navio, aumentando potencialmente o risco de colisão. Relativamente aos modelos, foi possível verificar uma maior probabilidade de ocorrência de Encontros-Próximos junto ao arquipélago da Madeira, à costa de Portugal Continental e na rota entre as duas regiões. Também se observou uma tendência crescente de Encontros-Próximos desde 2021 (particularmente para as baleias de bico), e uma maior densidade destes eventos no final do verão (para as baleias de barbas). Foi ainda observado que o tempo até uma potencial colisão foi mais reduzido em navios de carga (comparativamente aos navios oceanográficos), em grupos com menor número de indivíduos, e em condições de pouca visibilidade e de chuva. Nestas condições, o tempo para a realização de manobras evasivas eficientes é, consequentemente, menor. Estes resultados contribuem para uma melhor compreensão das interações entre baleias e embarcações no Oceano Atlântico Nordeste e fornecem informações relevantes para o desenvolvimento de estratégias de gestão e conservação destinadas a reduzir o risco de colisão, promovendo simultaneamente práticas marítimas mais sustentáveis. É também reforçada a importância de ter Observadores de Mamíferos Marinhos a bordo de embarcações, para registar não só os avistamentos de cetáceos, como também as variáveis ambientais e comportamentais associadas, e identificar os Eventos-Próximos, idealmente prevenindo potenciais colisões. Por fim, destaca-se a importância da educação e comunicação entre biólogos, decisores políticos e utilizadores do espaço marítimo enquanto ferramentas essenciais, tanto para aumentar a consciencialização sobre esta ameaça, como para melhorar o registo/documentação de Eventos-Próximos e colisões.
Vessel-whale collisions are a growing global concern and remain extremely challenging to quantify. As such, the use of proxies, such as Surprise Encounters (SEs) and Near-Miss Events (NMEs), is considered the best approach to studying collisions. Collectively designated as Close Encounters (CEs), these interactions consist of unplanned events that do not cause any confirmed external injuries to the whale yet have the potential to do so. This study aimed to define and quantify CEs in the Eastern North Atlantic, using a dataset from 2012 to 2024. Cetacean occurrence data was collected through visual monitoring, onboard cargo and oceanographic vessels, used as Research Platforms. In this study, CEs were defined based on Time to Potential Collision (TPC), rather than distance, providing a more dynamic and speed-sensitive approach. In total, 1211 sightings of whales were recorded, of which 35.76% were classified as SEs and 1.98% as NMEs. Physeter macrocephalus was the species most frequently involved in CEs, followed by Ziphius cavirostris. Seven NMEs were characterised as Likely Collision Events, and three of them exhibited indifferent behaviour, increasing collision risk. Generalised Additive Models were used to assess spatio-temporal patterns of CEs and the influence of detectability-related variables on TPC. In this study, CEs were more likely to occur near Madeira, mainland Portugal, and along the route connecting them. An increasing trend of CEs was observed since 2021, with a higher density of these events in late summer. A lower TPC, which implies less time to perform avoiding manoeuvres, was observed in cargo ships (compared to oceanographic vessels), in groups with fewer individuals, in conditions of low visibility, and in the presence of rain. These findings contribute to a better understanding of whale-vessel interactions in the Northeast Atlantic and provide valuable insights for developing management and conservation strategies designed to reduce collision risk.
Vessel-whale collisions are a growing global concern and remain extremely challenging to quantify. As such, the use of proxies, such as Surprise Encounters (SEs) and Near-Miss Events (NMEs), is considered the best approach to studying collisions. Collectively designated as Close Encounters (CEs), these interactions consist of unplanned events that do not cause any confirmed external injuries to the whale yet have the potential to do so. This study aimed to define and quantify CEs in the Eastern North Atlantic, using a dataset from 2012 to 2024. Cetacean occurrence data was collected through visual monitoring, onboard cargo and oceanographic vessels, used as Research Platforms. In this study, CEs were defined based on Time to Potential Collision (TPC), rather than distance, providing a more dynamic and speed-sensitive approach. In total, 1211 sightings of whales were recorded, of which 35.76% were classified as SEs and 1.98% as NMEs. Physeter macrocephalus was the species most frequently involved in CEs, followed by Ziphius cavirostris. Seven NMEs were characterised as Likely Collision Events, and three of them exhibited indifferent behaviour, increasing collision risk. Generalised Additive Models were used to assess spatio-temporal patterns of CEs and the influence of detectability-related variables on TPC. In this study, CEs were more likely to occur near Madeira, mainland Portugal, and along the route connecting them. An increasing trend of CEs was observed since 2021, with a higher density of these events in late summer. A lower TPC, which implies less time to perform avoiding manoeuvres, was observed in cargo ships (compared to oceanographic vessels), in groups with fewer individuals, in conditions of low visibility, and in the presence of rain. These findings contribute to a better understanding of whale-vessel interactions in the Northeast Atlantic and provide valuable insights for developing management and conservation strategies designed to reduce collision risk.
Descrição
Palavras-chave
Colisão de navios Evento de quase-colisão Encontros-surpresa Conservação de cetáceos Monitorização de cetáceos Risco de colisão
