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O estudo científico dos correlatos cognitivos da aquisição e desenvolvimento da
competência de leitura é um assunto de grande relevância quer teórica quer prática, no
sentido em que pode ajudar a compreender os processos cognitivos básicos envolvidos na
leitura e, em última instância, a delinear os seus preditores e a predizer dificuldades na sua
aquisição. A par da consciência fonológica – capacidade para perceber e manipular as
unidades de som –, um dos construtos que frequentemente tem sido associado ao
desenvolvimento da competência de leitura é a velocidade de nomeação de estímulos
visuais (também conhecida como nomeação rápida automatizada ou velocidade de acesso
ao léxico). Tradicionalmente, esta capacidade tem sido avaliada recorrendo ao paradigma
clássico das provas de nomeação rápida automatizada (RAN) desenvolvidas por Denckla e
Rudel (1976), nas quais é pedido ao sujeito que nomeie o mais rapidamente possível um
conjunto de estímulos familiares apresentados serialmente.
Nas últimas décadas, inúmeros estudos vieram demonstrar que a nomeação rápida é
um importante preditor da competência de leitura, sobretudo da fluência da leitura, e um
défice central em perturbações de leitura como a dislexia. O desempenho numa tarefa de
nomeação rápida apela à sincronização e integração de vários processos, incluindo: (a)
atenção ao estímulo, (b) integração da informação visual com representações visuais ou
ortográficas arquivadas em memória, (c) recuperação de uma etiqueta verbal, e a (d)
ativação da representação articulatória (Wolf & Bowers, 1999). Uma vez que a leitura e a
nomeação rápida envolvem processos cognitivos semelhantes, não parece surpreendente
que ambas as competências estejam associadas. No entanto, os estudos têm variado
consideravelmente no que respeita à magnitude da associação entre a nomeação rápida e a
leitura, encontrando-se resultados nulos ou negligenciáveis do valor preditivo da nomeação
rápida na explicação da variância do desempenho de leitura.
Vários fatores podem contribuir para as discrepâncias observadas na literatura, entre
os quais as medidas utilizadas para avaliar o desempenho de nomeação rápida (por
exemplo, medidas que utilizam estímulos ortográficos ou não-ortográficos) e de leitura (por
exemplo, medidas de fluência ou de acuidade). A importância da natureza das medidas quer
de nomeação rápida quer de leitura tem sido reconhecida por vários autores (para uma
revisão, ver Norton & Wolf, 2011). Paralelamente, as amostras estudadas, que têm variado
quanto à idade/escolaridade dos participantes e à sua competência de leitura (leitores
normais ou fracos leitores ou leitores disléxicos), poderão estar a contribuir para a
heterogeneidade dos resultados publicados. A literatura recente tem salientado a relevância
destes fatores na aquisição e desenvolvimento da leitura, embora a direccionalidade do seu
efeito seja ainda pouco clara. Por exemplo, a transição de um procedimento de leitura
baseado em estratégias de descodificação fonológica para uma leitura automática, à medida
que o sujeito se torna um leitor fluente, parece ser acompanhada por uma mudança no peso
relativo das capacidades cognitivas subjacentes à leitura (ex., Reis, Faísca, Castro, &
Petersson, in press). Outro fator importante que tem dificultado a interpretação dos dados
publicados sobre os construtos envolvidos na leitura, e em particular sobre a nomeação
rápida, relaciona-se com a consistência ortográfica do sistema de escrita nos quais os
estudos são conduzidos. Estudos trans-linguísticos sugerem que a consistência ortográfica
influencia a facilidade com que se aprende a ler nas escritas alfabéticas, bem como o tipo
de processamento de leitura predominantemente adotado pelos leitores (Seymour, Aro, &
Erskine, 2003).
No seio deste enquadramento, nesta tese procurámos clarificar as divergências
encontradas na literatura relativamente à relação entre a nomeação rápida e o desempenho
de leitura. Através de um estudo de meta-análise 1 é nosso objetivo realizar uma síntese
objetiva do estado da arte sobre a relação entre a nomeação rápida e a leitura, e avaliar a
influência de potenciais fatores moderadores da magnitude desta relação, nomeadamente:
(a) a natureza da tarefa de nomeação (tipo de estímulo nomeado, número total de itens, e
número de itens diferentes); (b) a natureza da tarefa de leitura (subcomponente de leitura, e
medida de resposta usada para avaliar o desempenho); (c) características da amostra
(escolaridade e nível de leitura); e (d) ortografia (sistema de escrita, e consistência
ortográfica). Para tal, foi realizada uma procura de artigos científicos nas bases de dados
PubMed, PsycINFO, e Web of Knowledge, tendo sido incluídas na meta-análise um total de
154 experiências independentes, compreendendo 21,706 participantes.
Os resultados indicam uma relação moderada-a-forte entre a nomeação rápida e o
desempenho de leitura (r =.44, I2 = 71.19). Nas análises seguintes procurou-se avaliar o
contributo de potenciais variáveis moderadoras que possam explicar a heterogeneidade
observada entre os tamanhos dos efeitos. Verificou-se que a nomeação rápida se associa
significativamente e em magnitude semelhante com todas as medidas de leitura, i.e., quer
estas apelem preferencialmente a um processamento de descodificação fonológica ou de
reconhecimento de padrões ortográficos da palavra. Os resultados sugerem ainda que a
magnitude das correlações é inflacionada nos estudos em que o desempenho de leitura é
baseado na velocidade/fluência de leitura, em particular nos níveis de escolaridade mais
avançados, e que utilizam tarefas de nomeação com estímulos alfanuméricos ao invés de
estímulos não-alfanuméricos. Adicionalmente, verificou-se que a força da associação entre
a nomeação rápida e a acuidade de leitura varia de forma não linear durante a evolução da
leitura, sendo que a correlação é maior nos leitores escolarizados mais novos e decresce à
medida que a escolaridade aumenta. O papel atribuível à proficiência dos leitores, i.e.,
fracos leitores/leitores disléxicos ou leitores normais, foi menos claro; no entanto, houve
uma tendência para a relação ser mais forte nas amostras de fracos leitores/leitores
disléxicos. Os resultados das comparações trans-linguísticas, por sua vez, sugerem que a
nomeação rápida tem um papel importante para o desempenho da leitura
independentemente das características da ortografia, ainda que as correlações tenham sido
maiores nas ortografias opacas, e em particular nas línguas não-alfabéticas.
Em suma, a presente meta-análise fornece resultados convincentes de que o
desempenho em tarefas de nomeação rápida refletirá processos cognitivos subjacentes que
são também relevantes para a aquisição/desenvolvimento da leitura. Consequentemente,
pode dizer-se que estas medidas serão um preditor útil da competência de leitura. Os
resultados são também discutidos no contexto das teorias atuais que procuram explicar
através de que processos cognitivos se associam a nomeação rápida e a leitura, com ênfase
nas hipóteses fonológica versus ortográfica.
1 Uma meta-análise permite a integração quantitativa de resultados de diversos estudos, recorrendo para
isso à noção de magnitude do efeito.
Description
Keywords
Neuropsicologia Reconhecimento visual Desempenho na leitura Descodificação